Murielle COMPÈRE-DEMARCY
Uma poderosa continuidade persiste – e se aprofunda – na obra de MCDem, a de um movimento dual que une o mergulho no mistério do ser e a expulsão do "grito/poema primordial" para os ermos de Hurle-Lyre*. Essa dualidade dialética altera nossa perspectiva e nos força a ver e reconhecer uma nova lucidez.
Murielle Compère-Demarcy nos convida, por um lado, a testar o ímpeto da realidade que — ao contrário do que as aparências possam sugerir — nunca está em repouso. Ela a desdobra em um movimento onde "lençóis ásperos giram e giram", onde "o rabirruivo brilha/da lareira quente e secreta das auroras/para a lareira avermelhada do crepúsculo", "onde as palavras acenam,/sopros de movimento e reatividade/para as asas do desejo/fugazes e efêmeros", onde "A escrita corre nos interstícios/do raio verde/Na loucura avermelhada da noite/seu poema tece sua teia lunar/(…) suas palavras de sangue e poesia azul/no oceano do texto/uma vela/inflada na paliçada da vertigem/impulsionada em direção ao mar aberto"... O leitor se depara, assim, com o dilema de se desapegar do poema para retornar à preguiçosa cotidianidade da ilusão,
Por outro lado, e na mesma linha, como os poetas da transcendência, sua escrita entra em contato com o que flui através de nós, permitindo assim que a experiência emerja na alma e, a partir dela, a pena que "escreve a ruptura". Em uma mise en abyme desorientadora, o poema espelhado clama por sua própria expulsão, como um lampejo de luz, na própria fronteira de seu início. Todo poeta autêntico tem um ritmo e uma visão que estabelecem sua especificidade, sua singularidade irredutível. Abrir Dante, Lautréamont ou Artaud nos mergulha em um universo que pulsa com um único coração. O mesmo acontece com Murielle Compère-Demarcy. Lê-la é oferecer-se a um distanciamento — do olhar, do coração, da mente, da respiração. Lê-la é viver uma experiência poética total, constituída pelo mergulho nos abismos do ser.
Mas essa imersão, em sua dualidade dialética, não engendra uma fusão, mas um entrelaçamento do ser e da realidade — ambos se unindo, mas cada um preservando sua própria alma. Aqui estamos no mais puro mistério, até mesmo em um misticismo, onde essa nova aurora se desdobra, constituída pela "insurreição enfim do amor e da aurora/que unem as margens". Uma revelação lúcida ilumina o movimento pelo qual interioridade e exterioridade se nutrem mutuamente: "Poema-Grito/primitivo que se expulsa/Cosmos Único/Poema-Mundo/para o mundo".
O ato de escrever, portanto, destaca um enigma, vital, mas talvez verdadeiramente insolúvel: a própria fonte da Palavra que nutre o poema. A poesia ilustra seu alcance — em todos os sentidos que esse termo pode evocar — em versos magníficos como: “A coluna de ar se eleva, viaja/atraída pelo sopro do cosmos universal/pelo vórtice das estrelas da Linguagem/A poesia dá sua alma/ao lodo da palavra.”
Esse impulso existencial — e cósmico —, semelhante ao "caos" de Nietzsche que se busca "dar forma", é uma maiêutica constante da Palavra que todo poeta carrega — apesar de si mesmo, sempre sem ser de forma alguma responsável pelo que potencialmente reside na alma — uma "Tempestade concebida no ventre do sol/enquanto entre lábios e febre/permanece a busca pela Palavra/A vida é experimentada". Esse "ventre do sol", sempre ativo, permite constantemente que a vasta energia cósmica que nutre grandes criadores e grandes místicos flua através dele.








